Um filme de Mouthwashing só funciona se se recusar a nos consolar
A Sony tem os direitos e Karyn Kusama está escalada para dirigir, mas o teste é se o filme mantém a crueldade e a culpa do jogo em vez de vender um terror espacial digerível e assustadorzinho.
Foto: CRITICAL REFLEX / Steam (uso editorial)
Dá para adaptar um jogo cujo sentido é que você não consegue desviar o olhar para um meio em que você sempre pode desviá-lo? Essa é a pergunta que paira sobre a notícia de que a Sony quer um filme de Mouthwashing.
O que a Sony realmente comprou
Segundo informa o The Hollywood Reporter, a Sony Pictures adquiriu os direitos do longa-metragem do jogo junto à desenvolvedora Wrong Organ e à publicadora Critical Reflex. A Deadline também noticia o acordo. Scott Derrickson produz com C. Robert Cargill e Vince Cheng pela Crooked Highway, Matt Manfredi e Phil Hay escrevem o roteiro, e Karyn Kusama está escalada para dirigir. O trio formado por Kusama, Manfredi e Hay já fez junto The Invitation e Destroyer.
A premissa, segundo a mesma reportagem: cinco tripulantes ficam presos na cargueira Tulpar depois que ela faz um pouso forçado em um asteroide, e a escassez de suprimentos, o isolamento e a paranoia expõem as fraturas entre eles. O jogo foi lançado para PC em 2024, teve nota 88 no Metacritic e vendeu quase um milhão de unidades no PC. O estúdio diz que conteúdos relacionados somam quase um bilhão de visualizações no TikTok. Na nossa visão, a Sony não está comprando só uma história, mas uma pegada cultural.
O perigo é a fórmula de Resident Evil
O The Hollywood Reporter apresenta o acordo como a Sony partindo para outro jogo depois de relançar Resident Evil com sucesso. Nós lemos isso como a Sony esperando outro sucesso, e isso nos preocupa. Resident Evil é uma franquia que funciona como máquina de agradar multidões. Mouthwashing, pela própria descrição da THR, trata de responsabilidade, negação e das consequências do poder sem controle. Isso não é uma premissa de monstro da semana, e tratá-la assim seria o jeito mais fácil de estragar tudo.
A tentação é óbvia: transformar a história de sobrevivência no asteroide em um thriller tenso, cheio de sustos repentinos, com um vilão claro e uma reviravolta satisfatória. Para nós, isso seria uma traição. O terror do jogo vem da angústia e do desconforto moral, não de coisas que pulam de dutos de ventilação. Se o filme entregar ao público uma ameaça externa para culpar, ele livra todo mundo da responsabilidade, inclusive os personagens.
A culpa era a interface
Esta é a parte difícil e, a nosso ver, o verdadeiro teste do filme. Um jogo torna você cúmplice ao colocá-lo dentro de uma perspectiva. Ele é em primeira pessoa, e a estrutura não linear faz você montar o horror peça por peça. Um filme não pode entregar um controle. Só consegue imitar essa cumplicidade pelo ofício: ponto de vista, informações guardadas, uma estrutura que faz o público ficar no desconforto em vez de escapar dele.
Por isso a equipe criativa nos dá uma esperança cautelosa. Kusama e seus roteiristas já fizeram thrillers psicológicos juntos, e para nós essa é a caixa de ferramentas certa. O currículo de Derrickson no terror também ajuda, embora a gente peça que ele resista aos instintos comerciais que vêm com uma marca de terror de estúdio. Essas são nossas impressões sobre as trajetórias deles, não uma previsão do resultado. Nada no anúncio diz algo sobre tom, classificação indicativa ou data de estreia, então por enquanto tudo isso é esperança.
O que diríamos à Sony
Não lixem as arestas. Um filme de orçamento médio, ruim de propósito, intransigente e capaz de dividir o público honraria, na nossa opinião, um jogo que trata de desconforto e não de alívio. Uma versão polida e tranquilizadora pode até render dinheiro, mas daria razão aos céticos das adaptações que mantêm o título e perdem o sentido.
Nosso veredito: o acordo de direitos só é boa notícia se a Sony tratar a crueldade como o produto, e não como um risco a ser administrado. Se o filme nos deixar sair do cinema confortáveis, terá errado o alvo por completo. Quem amou o jogo deve assistir com muita expectativa e pouca tolerância a amenizações.
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