Um filme de Elden Ring de US$ 200 milhões só funciona se recusar a se explicar
O orçamento recorde da A24 transforma uma adaptação de game em aposta de escala blockbuster. O risco não é o dinheiro, e sim a tentação de explicar a opacidade de Miyazaki.
Foto: FromSoftware, Inc., Bandai Namco Entertainment / Steam (uso editorial)
Adaptar um videogame ainda é uma aposta barata em um nome famoso? Não mais. Quando um estúdio construído em cima de filmes pequenos e estranhos coloca quase US$ 200 milhões em Elden Ring, a era dos simples acordos de licenciamento parece ter acabado. Sobra uma pergunta mais difícil: será que um jogo famoso por esconder respostas sobrevive a um orçamento que exige que todo mundo o entenda?
O valor de US$ 200 milhões é noticiado, e os detalhes importam
Segundo uma reportagem do Wall Street Journal repercutida pelo 20minutos, o orçamento inchou durante a produção e chegou a US$ 200 milhões. É quatro vezes o custo de Civil War, um filme anterior de Alex Garland para a A24, que custou US$ 50 milhões. A Deadline, conforme resumo do Espinof, fala em algo entre US$ 175 milhões e US$ 200 milhões, mais perto do teto. O filme é coproduzido com a DNA Films e a Bandai Namco, e a Amazon MGM Studios teria comprado antecipadamente os direitos internacionais de streaming. A estreia está marcada para 3 de março de 2028.
Tudo isso vem de reportagens da imprensa, não de um comunicado oficial da A24. Mesmo assim, a direção é clara.
A história não é o dinheiro, é a estrutura
O que nos chama a atenção é o financiamento, mais do que o número. A A24 age como uma major, mas mantém a cartilha de um estúdio independente: pré-venda de direitos, apresentação do filme em um mercado e, segundo se diz, roteiro guardado a sete chaves. De acordo com o VidaExtra, citando a Deadline, os compradores tiveram que ler roteiros incompletos em uma sala, com um representante do estúdio presente.
Para nós, esse é o detalhe mais revelador. O sigilo é uma estratégia de marketing, claro, mas também é a única forma honesta de vender essa propriedade. O fascínio do jogo nunca foi um resumo do enredo. Era a sensação de estar diante de algo imenso que ninguém ia te explicar.
O perigo real é um filme que explica demais
Esta é a nossa tese, e é uma opinião: o filme vai dar certo ou errado conforme sua opacidade. O texto do 20minutos observa que a obra de Miyazaki se apoia numa narrativa elíptica e num mal-estar existencial, e que ele aprovou o projeto depois de Garland enviar um tratamento de 160 páginas. Esse alinhamento é animador. É também exatamente o que torna a bilheteria assustadora.
Um filme de US$ 200 milhões tem uma atração embutida pela clareza: um herói com objetivo declarado, a mitologia entregue em diálogos, um vilão que monologa o que está em jogo. É assim que os grandes orçamentos se tranquilizam. As adaptações de games anteriores muitas vezes falharam ao transformar mistério em exposição, e a versão cara desse erro seria, a nosso ver, a pior. Os fãs sentiriam que aquilo que amam foi traduzido em algo mais seguro. Quem chega agora receberia um épico genérico de fantasia sombria com um nome famoso.
O histórico de Garland ajuda. Ele já fez filmes que não pegam o público pela mão, e a duração de quase três horas que circula (um palpite a partir do tamanho do roteiro, não uma duração confirmada) sugere espaço para o silêncio e o estranhamento. Mas espaço não é o mesmo que coragem.
Quem ganha e quem perde
Se der certo, os estúdios aprendem que adaptações de games podem sustentar orçamentos de prestígio e que o que as torna valiosas é a autoria, não o reconhecimento da marca. Se fracassar, espere um recuo para acordos de licenciamento mais baratos e seguros. Como lembra o 20minutos, a regra prática diz que um filme precisa arrecadar cerca de uma vez e meia o orçamento para dar lucro. O próprio artigo chama essa regra de imprecisa, então encare-a como uma referência aproximada, mas com esse orçamento a barra é, sem dúvida, muito alta.
Nosso veredito: não julgue este filme pelo orçamento nem pelo elenco. Julgue pelo que ele se recusa a dizer. Se os trailers explicarem o mundo, preocupe-se. Se deixarem você inquieto e um pouco perdido, a A24 pode ter entendido o jogo melhor do que boa parte da indústria que o vende.
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