Imagens reais de Itaewon em Modern Warfare 4 não são realismo: tire do jogo
Três segundos de imagens reais de um esmagamento de multidão que matou 159 pessoas estão na abertura de uma guerra fictícia. A Activision deve removê-las e explicar a revisão.
Foto: Activision / Steam (uso editorial)
Onde termina a "autenticidade" e começa a pura exploração? Call of Duty: Modern Warfare 4 acabou de nos dar uma resposta bem clara: em algum ponto antes de imagens reais de socorristas fazendo massagem cardíaca virarem textura para uma guerra fictícia.
Três segundos que a Activision admite serem reais
A sequência de abertura do jogo é uma montagem de reportagens sobre sua invasão norte-coreana inventada. Jogadores notaram que um trecho de cerca de três segundos parece mostrar imagens reais do esmagamento de multidão de Itaewon, em 2022. Como informa o VGC, 159 pessoas morreram nessa tragédia, e famílias de vítimas pediram à Activision que edite a sequência. O The Guardian diz que elas querem a remoção das imagens.
A Activision reconheceu que a cinemática usa imagens jornalísticas reais. Segundo a citação do Nintendo Wire, a empresa disse que não tinha "nenhuma intenção de fazer referência ou banalizar quaisquer tragédias reais, incluindo a tragédia de Itaewon". Pelas fontes que temos, ela não disse se vai remover ou substituir a cena.
Intenção não é defesa
A declaração da Activision provavelmente é sincera, e também não vem ao caso. Uma tragédia não é banalizada apenas quando alguém decide banalizá-la. Isso acontece quando um sofrimento real e identificável é editado como cenário de entretenimento. As famílias não estão julgando uma declaração de princípios. Estão vendo imagens que, segundo relatos, mostram socorristas fazendo massagem cardíaca, agora na abertura de um blockbuster que é, antes de tudo, um produto comercial.
O argumento de que "são só imagens de telejornal" também se volta contra quem o usa. Usar trechos de noticiário num telejornal falso é uma forma esperta de fazer uma guerra fictícia parecer plausível. Esse é exatamente o problema: a credibilidade emprestada só funciona porque as imagens são reais. Os mortos estão fazendo um trabalho narrativo que nunca aceitaram fazer.
Achamos que "realismo" é o enquadramento errado. Realismo é sobre como um jogo retrata o peso dos acontecimentos. Colocar imagens autênticas de um desastre recente, num país que o jogo também usa como cenário, não é profundidade. É um atalho, e que acaba atingindo pessoas que ainda estão de luto. A tragédia aconteceu em 2022, o que dificilmente é história distante.
A pergunta de verdade é como isso passou
É aqui que pressionaríamos mais a Activision. Uma cinemática assim presumivelmente passa por muitas mãos: roteiristas, editores, jurídico, talvez algum tipo de checagem de sensibilidade. Alguém precisou obter o trecho e alguém precisou aprová-lo, e gostaríamos de saber se alguém perguntou o que ele mostrava. Ou talvez alguém tenha perguntado, e a resposta foi "são só três segundos". Qualquer uma das respostas seria devastadora, e a empresa não nos disse qual é a verdadeira.
Vale notar que o jogo é vendido como "criado com atenção à cultura, à história e aos detalhes militares da região", segundo o resumo do Worthplaying sobre o material de marketing do jogo. Isso é uma promessa. Um processo de revisão que deixa passar uma tragédia sul-coreana com muitas vítimas num jogo ambientado na Coreia do Sul não a cumpre.
Tire, explique e converse com as famílias
Nossa posição é simples e curta:
- Remover ou substituir a cena numa atualização. São três segundos, e um jogo que já recebeu patches desde o lançamento pode corrigir isso rapidamente. É difícil ver como a história dependeria desses quadros.
- Dizer com clareza como as imagens foram escolhidas e aprovadas, e o que vai mudar. Um pedido de desculpas sem processo é só um comunicado de imprensa.
- Conversar diretamente com as famílias, e não apenas por meio de uma nota.
Há uma leitura cínica em que um patch é um custo pequeno e a polêmica passa até a Temporada 1, em 6 de novembro. Preferimos não aceitar isso. Quanto mais Call of Duty se apoia em "realista" e "emocional" como argumentos de venda, menos pode alegar desconhecimento ao tomar emprestada uma dor real para chegar lá. Tire o trecho e mostre-nos o registro do processo.
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