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Redação Gamersfera
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O alerta de Kutaragi sobre os consoles é um desafio, não uma profecia

O criador do PlayStation diz que IA e servidores podem tornar os consoles desnecessários. Para nós, é menos uma previsão e mais um teste: posse, latência e exclusivos.

Publicado
24 de outubro de 2026
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Foto: PlayStation / sala de prensa (uso editorial)

Quando o homem que construiu o PlayStation diz que os consoles correm um “perigo muito real”, a gente escuta. Quando esse mesmo homem agora comanda uma empresa de IA, a gente escuta com um pouco mais de atenção, talvez com uma sobrancelha levantada.

Ken Kutaragi disse a Christopher Dring, do The Game Business, que as máquinas atuais são caras demais e que plataformas de IA rodando em servidores, e não localmente, poderiam evoluir para soluções bem mais elegantes. Talvez, sugeriu, estejamos caminhando para uma era em que nenhum console seja necessário, como relata o Terra. Ele ressaltou que são opiniões pessoais, não planos da Sony. Deixou a empresa em 2007 e hoje é CEO da Cyber AI Entertainment.

O diagnóstico está certo, a cura é interesseira

O ponto mais forte de Kutaragi é o preço. Ele lembra que o PS4 passou a uma arquitetura parecida com a de um PC para facilitar o desenvolvimento, e que deu certo, mas agora os PCs também estão muito caros. Por que seguir por esse caminho? É uma pergunta justa, e a indústria ainda não a respondeu.

O lado mais fraco é o salto de “o hardware é caro” para “os servidores vão resolver”. Servidores também precisam de hardware, e duvidamos que sejam imunes às mesmas faltas de componentes. O estudo da Bloomberg Intelligence por trás das manchetes sobre o “fim dos consoles até 2035”, como resume o Canaltech, projeta US$ 38 bilhões em streaming até 2035. Mas isso depende de um excedente de GPUs, enquanto a AWS aumentou os preços de GPU em 20% em julho, o segundo reajuste em seis meses, por causa da escassez de memória. A previsão exige um mundo que ainda não existe.

Acrescentaríamos que quem trabalha com serviços de IA tem um gosto natural por futuros em que a IA é a resposta. Isso não significa que ele esteja errado. Mas faz da afirmação tanto um discurso de venda quanto uma profecia.

A posse é o verdadeiro campo de batalha

Aqui está a ironia. Em outra entrevista, Kutaragi disse ao VGC que a decisão da Sony de parar de produzir discos de jogos novos faz sentido, embora entenda a frustração dos fãs. Segundo o Game Over Drive, a Sony anunciou em 1º de julho de 2026 que os novos jogos de PlayStation deixarão de ser lançados em disco a partir de janeiro de 2028, e que os downloads representaram cerca de 80% das vendas de jogos completos no ano fiscal de 2025.

Juntando as duas falas, o quadro parece coerente: primeiro vai o disco, depois a caixa. Cada passo transforma o jogador de dono de um objeto em locatário de um acesso. Para nós, essa é a verdadeira linha de fratura. As licenças digitais já limitam a revenda e o empréstimo; o streaming eliminaria até a cópia local. Um console que ainda permite guardar, instalar e jogar sua biblioteca sem pedir permissão é um produto que o streaming não consegue copiar facilmente.

O que os consoles precisam provar

Os limites práticos são reais. Como aponta o Sussuworld, qualidade da conexão, latência, custo do serviço e infraestrutura pesam no jogo remoto, e os consoles ainda oferecem uma experiência simples e previsível de comprar e jogar. A mesma matéria observa que plataformas de IA em servidores e serviços de jogos na nuvem não são a mesma coisa, distinção que, para nós, as falas de Kutaragi embaralham.

Nossa leitura: os consoles sobrevivem se deixarem de ser meros PCs mais baratos e se tornarem a melhor resposta a três perguntas. Posso ser dono do que compro? Parece instantâneo? Há aqui algo que não encontro em outro lugar? Exclusivos, baixa latência e uma biblioteca de verdade são a muralha. O preço é o portão: se a próxima geração custar caro demais, o streaming vence por W.O., não por mérito.

Os jogadores devem se preocupar?

Ainda não. Não há sinal de que PlayStation, Xbox ou Nintendo estejam abandonando o hardware; o Canaltech informa que o PlayStation 6 está em produção e que o Xbox prometeu o Project Helix em breve. A preocupação deve ser mais restrita e prática: ficar de olho nos preços e no que acontece com o seu direito de manter o que você paga.

Nosso veredito: encare as palavras de Kutaragi como um alerta dirigido às donas das plataformas, não aos jogadores. Se você valoriza a posse, vote com o bolso nos formatos que a preservam. E, se a indústria quer que os consoles durem além de 2035, precisa nos dar motivos que vão além da nostalgia.

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