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Hollywood finalmente respeita os games. A corrida do ouro é o teste

Adaptações funcionam quando os estúdios contratam quem ama a obra original. Com os direitos sendo comprados em ritmo alarmante, essa disciplina está prestes a ser testada ao limite.

Publicado
1 de novembro de 2026
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Foto: FromSoftware, Inc., Bandai Namco Entertainment / Steam (uso editorial)

A maldição dos filmes de videogame foi mesmo quebrada, ou Hollywood só teve sorte por um ano? Nós ficamos com a primeira resposta, com um asterisco do tamanho de um orçamento de US$ 200 milhões.

O balanço mais recente da Polygon defende que 2026 pode entrar para a história como um ano marcante para o gênero. Ele cita The Super Mario Galaxy Movie, o sucesso cult de Iron Lung, um Resident Evil que colocou o diretor Zach Cregger numa comédia maluca com sustos de verdade e até um Street Fighter que a crítica detonou, mas que encontrou seu público como um filme pipoca deliciosamente bobo. O mesmo texto diz que os direitos cinematográficos de games estão sendo comprados em ritmo alarmante.

O gênero amaldiçoado deixou de ser amaldiçoado quando deixou de ser genérico

Por décadas, a lógica foi simples: um jogo é uma marca com público embutido, então basta colocar um astro e um orçamento. Os resultados foram os que se esperam de quem trata um jogo como um logotipo.

O que mudou, na nossa avaliação, é a pergunta que os estúdios fazem. Antes era "o que fazemos com essa propriedade intelectual?". Agora parece mais com "quem entende por que as pessoas amam isso?". Repare no padrão dos exemplos da Polygon. Nossa leitura é que Resident Evil não conquistou ninguém recriando um enredo. Encontrou um diretor com voz própria e o deixou combinar comédia e medo, que é justamente o que os jogos sempre fizeram à sua maneira. Iron Lung, por sua vez, transformou uma adaptação de nicho em evento imperdível para os fãs de terror, em vez de uma tentativa diluída de atingir o grande público.

Até o exemplo falho ajuda o argumento. Street Fighter ter sido detonado e mesmo assim abraçado sugere que o público perdoa muito quando o filme sabe que tipo de bobagem é. Perdoa bem menos quando ele tem vergonha da obra original.

A TV aponta na mesma direção. A Polygon atribui a The Last of Us e Fallout a prova de que franquias com longa história entregam aos produtores muito material pronto. Material é a palavra-chave. Não um nome para estampar num cartaz, mas um mundo com regras.

A onda de criadores que viraram cineastas é a verdadeira mudança estrutural

O fio mais interessante do texto da Polygon não é sobre games, e sim sobre quem está dirigindo. O veículo chama 2026 de o ano do cineasta criador de conteúdo, com Iron Lung e Backrooms como grandes sucessos, e observa que muitos cineastas em ascensão têm alguma ligação com os games. Rumores, e são apenas rumores, dizem que Kane Parson, diretor de Backrooms, pode seguir com uma adaptação de Portal.

Se isso se confirmar, importa mais do que qualquer anúncio de elenco. Cineastas que cresceram jogando, e que sabem o que um público criado no YouTube e no TikTok quer ver, estão recebendo cheques em branco. A Polygon compara o momento à renovação de Hollywood nos anos 1960, que levou ao estrelato jovens saídos de escolas de cinema, como Spielberg e Scorsese. Nós diríamos de forma menos grandiosa: quem respeita a obra original finalmente está com as chaves. Essa é a tese inteira em uma frase.

Agora vem a parte em que o respeito fica caro

Aqui está a preocupação. A Polygon descreve uma verdadeira corrida do ouro: o Elden Ring da A24 teria um orçamento de US$ 200 milhões, o que o tornaria o filme mais caro do estúdio até hoje, com a Amazon detendo os direitos exclusivos de streaming. O texto também lista The Legend of Zelda, Sonic the Hedgehog 4, Call of Duty, Helldivers e A Minecraft Movie Squared com datas de estreia confirmadas até 2028. A Netflix desenvolve uma série live-action de PUBG com Donald Glover envolvido, e a Sony trabalha numa adaptação de Mouthwashing com Karyn Kusama na direção.

Algumas dessas escolhas parecem animadoras. Juntar um diretor marcante a um jogo de terror de nicho e perturbador é, na nossa avaliação, exatamente a fórmula que funcionou este ano. Uma fantasia épica de US$ 200 milhões é outra história. A própria Polygon a chama de grande aposta, dado o histórico irregular da fantasia nas telonas, e quanto maior o cheque, maior a tentação de aparar o que tornava a obra original especial.

Corridas do ouro costumam ter um segundo ato previsível. Quando todo mundo compra direitos, o recurso escasso deixa de ser a licença e passa a ser o bom gosto para usá-la. Estúdios que compram o nome primeiro e procuram a equipe criativa depois provavelmente farão os mesmos filmes esquecíveis da era antiga, só que com efeitos melhores. E um calendário lotado fará o público separar as adaptações entre "vale a pena" e "obrigação", a palavra que a Polygon usou para o filme do Mario.

Nosso veredito

Seja otimista, mas de forma seletiva. A nova era parece real e, na nossa avaliação, deve mais à contratação de quem entende os jogos do que a orçamentos maiores. Julgue cada anúncio com uma pergunta: quem está na cadeira de diretor, e essa pessoa já mostrou que entende o material? Um cineasta marcante ligado a um jogo que ele claramente ama é um bom sinal. Um nome famoso e uma data de estreia, sem mais nada, é o velho manual em embalagem nova.

Nossa previsão, e é só isso: algumas das próximas adaptações confirmarão a lição, e outras trarão a maldição de volta. A diferença não será o tamanho da franquia, e sim se alguém na sala jogou o jogo.

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