As divulgações de IA na Steam viraram rotina, e esse é justamente o problema
Quando 41,67% dos lançamentos novos da Steam analisados pelo Golem declaram uso de IA, o aviso deixa de alertar e vira papel de parede. Só ajuda se disser algo útil ao jogador.
Imagem gerada por IA
O que acontece com uma etiqueta de advertência quando quase metade de todos os produtos a carrega? Ela deixa de advertir. Vira parte da embalagem, algo em que o olho escorrega a caminho do botão de comprar. Essa é, na nossa visão, a verdadeira história por trás do último número que saiu da Steam.
O que os dados mostram
O veículo alemão Golem analisou 2.803 lançamentos novos da Steam e constatou que 41,67% deles declaram o uso de IA. A análise também examina para que os desenvolvedores usam a tecnologia, mas só temos o número da manchete, então não vamos especular sobre o detalhamento.
Separadamente, o austríaco Der Standard argumenta que a Steam tem um problema de clones feitos com IA e que a Valve quer fazer (quase) nada a respeito. O argumento: quando um jogo viraliza, as cópias aparecem rápido, e na era de ferramentas como o Claude Code um clone pode ser construído em horas. Desenvolvedores solo e estúdios indie, diz o texto, são cada vez mais os prejudicados.
Aviso normal não é o mesmo que aviso útil
Vamos deixar claro o que os 41,67% dizem e o que não dizem. Eles sugerem que declarar o uso de IA é rotina entre os lançamentos novos. Não dizem que 41,67% dos jogos são "lixo". A própria manchete do Golem usa essa palavra em forma de pergunta, e a análise é estruturada em torno do uso que se faz da IA. Essa distinção é tudo. Um estúdio que usa um modelo para textos provisórios ou ajuda com código não é o mesmo que uma página de loja montada com arte gerada, texto gerado e trailer gerado.
Se o aviso soa igual para um desenvolvedor que usou um assistente para agilizar ferramentas e para alguém que produz enchimento de loja em massa, os jogadores não aprendem nada. Achamos que essa é a fraqueza de qualquer divulgação simples de sim ou não: ela mede honestidade, não qualidade.
Há também uma vantagem incômoda para quem age de má-fé. Um aviso comum faz o uso de IA parecer banal, e banalidade é exatamente o que uma enxurrada de lançamentos feitos sem esforço precisa. Quanto mais normal a etiqueta, menor o estigma associado a ela, inclusive nos casos em que o estigma era o objetivo.
No problema dos clones, o aviso falha mais
Esta é a parte que consideramos mais reveladora. A reclamação do Der Standard não é sobre um jogo admitir ou não o uso de IA. É sobre cópias de jogos de sucesso que surgem rápido, e, com honestidade ou não, um aviso de IA não resolve isso. Um clone pode declarar tudo e continuar sendo um clone.
O aviso trata de um problema de transparência. A clonagem é um problema de fiscalização. Misturar os dois permite que as plataformas pareçam atentas enquanto o dano recai sobre quem menos consegue absorvê-lo: equipes pequenas cujo único sucesso é duplicado antes de poderem aproveitá-lo. Se a resposta da Valve for mesmo próxima de "quase nada", como diz a manchete do veículo austríaco, os dados do aviso viram um painel bonito sobre um problema não resolvido.
O que gostaríamos de ver
Nosso veredito: o aviso foi um primeiro passo razoável, e os números do Golem sugerem que os desenvolvedores o levam a sério. Mas quando uma regra é cumprida por cerca de quatro em cada dez lançamentos novos, ela deixa de ser um grande filtro. Três coisas fariam com que valesse mais, e todas são opiniões nossas, não anúncios:
- Detalhamento: dizer o que a IA tocou (arte, código, voz, texto), não só que ela foi usada.
- Visibilidade: facilitar para os jogadores agirem com base na informação.
- Fiscalização contra imitadores, tratada separadamente do aviso.
Até lá, nosso conselho aos jogadores é simples: leiam o aviso como o início da pergunta, não como a resposta. Verifiquem para que a IA foi usada, olhem quem fez o jogo e há quanto tempo atua, e desconfiem de um sósia repentino de um sucesso viral. O número é um retrato útil de onde a indústria está. Só não é garantia de qualidade.
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