Mass Effect pode sobreviver à BioWare, mas só se a EA largar a franquia
Com a BioWare fechada e Mass Effect 5 cancelado, petições e apoio de dubladores e veteranos mostram o valor da IP. O histórico da EA sugere que ela vai deixá-la parada.
Foto: Electronic Arts / Steam (uso editorial)
Como se chama uma empresa que fecha um estúdio de 30 anos, mata um jogo que, segundo um consultor da comunidade, foi feito "para nós, os fãs", e depois vê a internet implorar que ela venda? Por ora, a resposta educada é "detentora dos direitos". A menos educada: o dono de um prédio vazio que se recusa a entregar as chaves.
Os fatos são brutais e simples. Em 21 de outubro, segundo a IGN, a EA anunciou o fechamento da BioWare e confirmou o cancelamento do próximo projeto de Mass Effect. O The Guardian calcula o custo humano em mais de 400 pessoas perdendo o emprego. Em seguida, vazou um trailer interno completo, e a petição dos fãs pedindo que a EA venda a IP ou a entregue a outro estúdio passou de 76.500 assinaturas; alguns fãs chegam a pedir boicote aos produtos da EA.
Os vazamentos fazem o cancelamento parecer pior, não melhor
Fechar um estúdio é uma decisão de negócios. Cancelar um jogo que parece bem adiantado é uma declaração. Para ser justo, a Forbes descreve o projeto como em fase inicial de desenvolvimento, então o quanto ele realmente avançou é questionável. Mas a IGN diz ter verificado detalhes com Dantics, um criador do YouTube que integrava o Mass Effect Council, grupo de membros externos da comunidade: um cenário de Guerra Fria galáctica, missões feitas à mão com "liberdade no estilo Hitman" e o retorno de Liara. Uma fonte do desenvolvimento também disse à IGN que a BioWare tinha todas as principais raças alienígenas funcionando na versão de teste. Isso não parece um rascunho num quadro branco.
Há ainda o diretor técnico, Romain Toutain. Como relata o Kotaku, ele descreveu um sistema em que os saves poderiam criar linhas do tempo paralelas, levando em conta escolhas dos jogos anteriores. São palavras de um desenvolvedor, não uma prova neutra, e não dá para julgar um jogo por uma transmissão ao vivo. Mas, se metade for verdade, a EA não cancelou um projeto problemático. Cancelou um com um atrativo real, depois que Andromeda deixou muitos fãs querendo ver a série redimida.
A boa vontade é real, e a EA está queimando esse patrimônio
O que chama atenção é a amplitude da coalizão. Que os fãs se mobilizem é esperado. Mas a IGN relata que veteranos do setor e até dubladores dos jogos também estão se manifestando, e a Polygon diz que funcionários lutam para salvar a franquia. Um político canadense chega a pedir que o governo apoie a compra do estúdio. É improvável que dê em algo, mas, a nosso ver, mostra que Mass Effect é tratado como patrimônio cultural compartilhado que por acaso tem um único dono.
Para uma publisher, esse tipo de carinho é a coisa mais cara que o dinheiro não compra, e está sendo deixado esfriar.
"A EA nunca vende nada" é o problema inteiro
Agora a parte incômoda. O próprio Toutain não espera um resgate. A Polygon o cita: "A EA nunca vende nada. Eles só encerram as coisas e ficam sentados em cima das licenças." A IGN acrescenta que analistas e ex-chefes da BioWare acham improvável que a EA ouça os fãs.
Acreditamos que esse é o desfecho mais provável, e o pior. Uma licença parada não rende nada, e uma franquia que ninguém toca por anos aos poucos deixa de ser franquia. A energia dos fãs é perecível: um usuário do Reddit citado pela IGN pedia ação antes que o barulho em torno do jogo diminua, e esse receio parece justificado.
A EA tem três opções honestas: fazer o jogo em outro lugar, licenciar a IP para um estúdio interessado ou vendê-la. Ficar parada também é uma escolha, e é a que transforma uma série querida em um exemplo do que não fazer.
Nosso veredito
Mass Effect pode sobreviver à BioWare. O público existe, a boa vontade existe e, a julgar pelo trailer vazado, pode haver muito trabalho que vale aproveitar. Falta uma detentora dos direitos disposta a agir. Se você quer ajudar, assinar a petição não custa nada, mas teríamos cuidado com boicotes: eles podem atingir trabalhadores de outros estúdios da EA muito antes dos executivos. A pressão que importa é a que torna segurar a licença mais constrangedor do que lançar o jogo. A EA deveria deixar outra pessoa tentar.
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